Leia o discurso de Ana Lula que resgata história da CUT, PT e dos sindicalistas Rômulo Rodrigues e Edmilson Araújo, homenageados pela ALESE

Escrito por Assessoria de Imprensa Ligado TPL_WARP_PUBLISH . Publicado em Notícias

Confira a íntegra do discurso histórico da deputada estadual Ana Lula, que resgata a memória do sindicalismo sergipano, da Central Única dos Trabalhadores e do Partido dos Trabalhadores a partir da trajetória de dois militantes aguerridos: Rômulo Rodrigues e Edmilson Araújo, homenageados nesta terça-feira, 22, pela Assembleia Legislativa de Sergipe com o Título de Cidadania Sergipana.

O
Senhor Presidente Deputado Luciano Bispo,
Senhores Deputados, Senhoras Deputadas
(Registro das autoridades presentes na solenidade)
Boa tarde, a todos e a todas presentes nessa solenidade.
Os títulos de Cidadãos Sergipanos que serão nesta solenidade entregues para os Companheiros Edmilson José Santos Araújo e Rômulo Rodrigues, se revestem nessa data de uma importância ímpar e singular, pois essa sessão solene da Assembleia Legislativa de Sergipe é um registro histórico que há muito se fazia necessário, tendo em vista o papel decisivo desses dois operários na disseminação do “novo sindicalismo” em Sergipe, a partir do início da década de 80.
Edmilson Araújo é natural de Alagoinhas na Bahia. Rômulo Rodrigues nasceu na região do Seridó, no município de Caicó no Rio Grande do Norte. Em comum os dois foram operários da Nitrofértil/Fafen, atualmente aposentados, ambos militaram na fundação do PT, juntos fundaram o Sindiquímica e a CUT, para responder aos apelos da história foram construir o PSTU e posteriormente regressaram ao PT.
O ex deputado estadual Professor Wanderlê Correa é o autor do Projeto de Resolução que concede o título de cidadão ao Edmilson Araújo, enquanto que no caso de Rômulo Rodrigues eu sou a autora da propositura que lhe concedeu a cidadania sergipana. As lutas históricas do Povo e a defesa intransigente dos interesses de Sergipe, os forjaram cidadãos das terras de Serigy, sendo que os Títulos de Cidadania, ora outorgados por essa Casa Legislativa, apenas legitimam os mais de 36 anos de vivência, trabalho e militância política em Sergipe. Agora mais uma vez, tanto Edmilson Araújo, quanto Rômulo Rodrigues foram novamente convocados para se engajarem na luta contra a decisão do governo ilegítimo e golpista do Temer, juntamente com os seus aliados do PSDB, de fechar a fábrica da FAFEN em Sergipe.
A organização operária liderada por Edmilson Araújo e Rômulo Rodrigues, na fábrica de fertilizantes Nitrofétil/Fafen, possibilitou a criação da APEQ – Associação dos Petroquímicos, sendo que a consolidação da mesma resultou na sua transformação em sindicato, nascendo assim o combativo SINDIQUÍMICA. A organização sindical dentro da FAFEN possibilitou o surgimento de formas participativas e inovadoras na gestão, inclusive com a autonomia dos operários na organização do sistema produtivo da fábrica de fertilizantes. Nos anos 90, visando o enfrentamento a hegemonia da era neoliberal, o SINDIQUÍMICA/SE decide unificar-se com o SINDIPETRO AL/SE.
As greves no ABC, lideradas pelo líder metalúrgico Luís Inácio Lula da Silva, trincaram as estruturas da ditadura civil/militar, mostraram para as massas de trabalhadores que era possível enfrentarem as forças da repressão e a política de arrocho econômico do poderoso Delfim Neto, ao tempo que inauguraram novas experiências e práticas sindicais que rapidamente se espalharam por todo o país. Em Sergipe, a classe trabalhadora não fica indiferente ao que está acontecendo no restante do país, particularmente no ABC paulista, pois essa ãnima nova foi capaz de despertar a necessidade de se organizar o ainda incipiente movimento sindical sergipano. Foi nesse cenário e contexto histórico que Edmilson Araújo e Rômulo Rodrigues prestaram relevantes serviços a Sergipe e ao seu Povo.
Nessa época, em todo o Brasil, aguçou-se a imperiosa necessidade de organização popular e sindical no chão das fábricas, nas periferias das cidades, entre os servidores públicos, entre os campesinos e indígenas atingidos pelas novas fronteiras agrícolas do agronegócio, entre as mulheres historicamente oprimidas, entre a discriminada população LGBT, entre os sem teto, entre os sem terra e também entre as pessoas com deficiência, dentre tantos outros segmentos da sociedade brasileira que aspirava pelo fim da ditadura-civil militar. Em Sergipe, no final dos anos 70 e início dos anos 80 multiplicam-se os conflitos de terra, ganhando repercussão nacional e internacional às lutas dos posseiros de Santana dos Frades, em Pacatuba e do Povo Xokó, em Porto da Folha, cujo papel desempenhado pelo bispo-profeta, Dom José Brandão de Castro, foi decisivo para que os campesinos e indígenas fossem vitoriosos. Nesse contexto, dentre tantos que se juntaram aos sergipanos nessas trincheiras da resistência, cabe o registro da chegada do geólogo, José Eduardo Dutra, para trabalhar na Petromisa e, da professora Tânia Magno na Universidade Federal de Sergipe.
Como um grande rio, cuja bacia hidrográfica se forma a partir de múltiplos riachos e outros tantos rios perenes, a luta de classes no início dos anos 80 permitiu que a classe trabalhadora brasileira ousasse acreditar que era possível fundar no Brasil um partido que fosse “seu”, que pertencesse única e exclusivamente aos trabalhadores e trabalhadoras. sendo assim, o PT nasceu como o catalizador da resistência democrática contra a ditadura civil-militar, da luta de classes frente ao sistema capitalista que concentra renda nas mãos de poucos e condena milhões a miséria absoluta, da luta por reforma agrária, das mobilizações pela demarcação das terras indígenas e quilombolas, do novo movimento ecológico oriundo das comunidades extrativistas da amazônia, das batalhas dos movimentos populares que levantaram as bandeiras dos direitos humanos e sociais, do insurgente movimento estudantil que ressurgiu como uma fênix mais forte e rebelde, além dos milhares de homens e mulheres militantes abrigados nas dezenas de organizações de esquerda que clandestinamente combateram com veemência os 21 anos do regime ditatorial.
Em um ato ousado de desobediência civil, pois a legislação vigente proibia a existência de centrais sindicais, os sindicalistas que tinham aderido às concepções do novo sindicalismo, convocaram em 1983 a CONCLAT – Congresso Nacional da Classe Trabalhadora e fundaram a CUT – Central Única dos Trabalhadores. Os Companheiros Rômulo Rodrigues e Edmilson Araújo, ao lado do líder camponês Dionísio Cruz, lideram a fundação da CUT Sergipe, num momento histórico de ascensão das lutas dos servidores públicos, da organização do Polo Sindical Rural do Baixo São Francisco, do surgimento de novos sindicatos e da proliferação das oposições sindicais.
O SINDIQUÍMICA em Sergipe, não se restringia a defesa dos interesses individuais e coletivos dos operários da Nitrofértil /Fafen, pois a concepção e a práxis sindical dos seus insurretos e inquietos dirigentes era como um grande ancoradouro que cabia o apoio às oposições sindicais, o suporte para o surgimento de novos sindicatos, o investimento na formação política dos trabalhadores para além de sua base, a permanente aliança operária-camponesa e a convocação para que os trabalhadores e trabalhadoras pudessem ser sujeitos de sua história, fato que implicava na necessidade de organização partidária, dentro do Partido dos Trabalhadores, pois somente assim a classe compreenderia que havia alternativas de poder distintas das apresentadas ao povo pelas elites brasileiras e oligarquias sergipanas.
Os sindicatos sempre foram mais do que filiados a CUT Sergipe, tendo em vista que eram abrigados na sua sede, ora chamada de “Casa Rosada”, quando funcionava no centro de Aracaju, ou de “Casa Branca”, quando funcionou na avenida João Rodrigues. Edmilson Araújo sempre foi o formador político de centenas de militantes e dirigentes sindicais, já o Rômulo Rodrigues foi o aglutinador presidente da CUT Sergipe, porém ambos sempre foram dirigentes estrategistas, tanto estaduais como nacionais, afeitos ao diálogo e exímios negociadores.
Rômulo e Edmilson sempre compreenderam a importância de a classe trabalhadora ter os seus próprios partidos políticos, tendo os dois contribuído decisivamente para a fundação e construção do PT e do PSTU em Sergipe. Vocês ensinaram aos militantes da esquerda sergipana que o partido por ser parte, deve sempre defender os interesses da classe trabalhadora, que a soberania popular se sobrepõe aos interesses individuais e que uma organização partidária socialista não pode ser moldada para ser peça auxiliar dos interesses políticos de alianças de ocasião e eleitoreiras. Os debates políticos que Rômulo e Edmilson travaram nos anos 80 e 90, já sinalizavam para a inviabilidade de governos de coalizão, sem consistência e nem identidade ideológica. Hoje o PT se ressente das consequências dos governos de coalizão com partidos e políticos de direita.
Edmilson e Rômulo logo perceberam que era preciso organizar a militância do movimento sindical cutista para disputar os rumos da CUT, na condição de maior central sindical da América Latina, pois o sindicalismo classista, combativo e autônomo surgido no final dos anos 70 acenava para formulações políticas que reduziam a sua capacidade mobilizadora e propositiva, a condição de aparelhos da ordem vigente, sustentados pelo imposto sindical e domesticados pelo moderantismo. A resposta de vocês foi à organização da forte e ousada CUT pela Base. Creiam, não há dúvidas que a CUT Sergipe, até os dias de hoje, se diferencia das seccionais de outros estados federados, pois a mesma é herdeira dessa tradição sindical da mobilização, da luta permanente, da autonomia frente a governos e partidos e da combatividade ante as políticas neoliberais que representam uma ameaça aos direitos da classe trabalhadora. As greves gerais de 2016 e 2017 são as provas cabais da capacidade aglutinadora e mobilizadora da CUT Sergipe.
Antes de ser assassinado em uma emboscada pelo sanguinário delegado Fleury, em São Paulo, o revolucionário Carlos Mariguella escreveu um poema que certamente traduz o espírito, as convicções ideológicas e a visão do mundo, de sindicalistas que, a exemplo de Edmilson Araújo e Rômulo Rodrigues, construíram organizações sindicais que hoje são as ferramentas da classe trabalhadora na resistência contra todas as formas de exploração e injustiças sociais, o que possibilita nos dias atuais termos instituições classistas sólidas, capazes de denunciar as nefastas ações dos golpistas, com capacidade para fazer o enfrentamento às reformas trabalhista e da previdência, com disposição também para combater o avanço da ideologia do fascismo, pois essa praga está dilacerando a democracia brasileira.
Companheiros Edmilson Araújo e Rômulo Rodrigues, a poesia do Carlos Mariguella, que embalou os sonhos da nossa geração, continua motivando em 2018, os homens e mulheres que estão conscientes, que é preciso barrar o ainda inconcluso golpe parlamentar, jurídico e midiático que tirou do poder a Dilma, justamente por ser uma presidenta da República honesta, uma vez que esses golpistas foram capazes de em 2 anos destruírem conquistas sociais resultantes de um século de muitas lutas da classe trabalhadora. O Pacto entre a Casa Grande e a Toga, permitiu que providências aparentemente “legais” fossem tomadas nos tribunais, respaldadas pela mídia, para que as elites não fossem mais uma vez derrotadas nas urnas, cabendo ao oligopólio midiático da Globo e ao parcial juiz Moro, a tarefa de aprisionar o presidente Lula em Curitiba, impondo assim, ao maior estadista brasileiro da história da nação, a condição de preso político do século XXI.
“Não pretendo nada,
nem flores, louvores, triunfos.
nada de nada.
Somente um protesto,
uma brecha no muro,
e fazer ecoar,
com voz surda que seja,
e sem outro valor,
o que se esconde no peito,
no fundo da alma
de milhões de sufocados.
Algo por onde possa filtrar o pensamento,
a ideia que puseram no cárcere.
É preciso não ter medo,
é preciso ter coragem de dizer.
Há os que têm vocação para escravo,
mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão.
Não ficar de joelhos,
que não é racional renunciar a ser livre.
Mesmo os escravos por vocação
devem ser obrigados a ser livres,
quando as algemas forem quebradas.
É preciso não ter medo,
é preciso ter coragem de dizer.
O homem deve ser livre...
O amor é que não se detém ante nenhum obstáculo,
e pode mesmo existir quando não se é livre.
E no entanto ele é em si mesmo
a expressão mais elevada do que houver de mais livre
em todas as gamas do humano sentimento.
É preciso não ter medo,
é preciso ter coragem de dizer.”
Carlos Mariguella
Edmilson Araújo e Rômulo Rodrigues, ao saudá-los como os dois mais novos cidadãos sergipanos, convido-os a ecoarem comigo o grito que está preso na garganta de milhões de operários, camponeses, desempregados, trabalhadoras e trabalhadores do Brasil e de Sergipe: Fora Temer! Lula Livre!